Área de proteção ambiental, ilha do Combu dá exemplo de turismo rural

Área de proteção ambiental, ilha do Combu dá exemplo de turismo rural

De frente para o rio Guamá, logo ali, do outro lado da margem desenhada por ruas, portos, casas de alvenaria e espigões de Belém, encontra-se o bolsão verde da ilha do Combu, umas das 39 ilhas que fazem parte da capital paraense. O lugar já é bem conhecido dos belenenses, que há anos atravessam o rio para frequentar os restaurantes, bares e tomar banhos nos seus furos e igarapés. No entanto, a ilha também é uma das quatro áreas de preservação ambiental (APA) da Região Metropolitana de Belém. Gerida pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-bio), a APA do Combu hoje é um exemplo das grandes possibilidades do turismo rural do Pará.

O turismo rural é uma modalidade que leva o visitante a conhecer um pouco da rotina das comunidades visitadas. No Pará, passeios como os que são feitos entre as localidades ribeirinhas do Combu permitem conhecer e vivenciar como produtos tradicionais são feitos, além de trilhar rotas preservadas nas matas ou nos rios. Em vez de apenas comprar e fotografar, o visitante conhece melhor a dinâmica do local.

Diversos barqueiros conhecem as rotas oferecidas pela área verde que abriga as comunidades do Combu. Muitos já trabalham em parceria com o Ideflor-bio para levar turistas pelos furos de rio que contornam toda a área. E tudo isso com paradas estratégicas, em localidades que mostram as características da área de preservação. Entre elas, além do rico recorte preservado de floresta e dos manguezais, estão os vastos açaizais – que crescem naturalmente à beira da várzea – e as casas ribeirinhas decoradas, que sempre possuem um pequeno porto e alguns cães, que fazem o trabalho dobrado de vigia, alarme e campainha.

Economia nativa – Numa destas casas mora a senhora Ruth Carvalho Cardoso, de 70 anos. Nascida na própria ilha do Combu, essa anciã é dona de um terreno farto em cacau e açaí, herdado pelo sogro. O manejo familiar da área é centenário, mas as espécies são todas nativas da região. Ela e mais cinco membros da família gerenciam hoje um próspero negócio de colheita, compra, secagem e venda de sementes de cacau.

“Nossos funcionários colhem o nosso cacau no mato. Deixamos no galpão por quatro dias fermentando, para depois deixar de três a quatro dias no sol. Essa é a nossa rotina durante toda a safra”, sorri dona Ruth, que tem seu armazém muito bem vigiado pelos dois cães da casa. “Agora estamos num momento bom, na safra de junho. Estamos vendendo bastante para Santa Izabel do Pará. Isso aqui é a minha vida. E eu não troco por nada da cidade”.

Águas, matas e chocolate – Seguindo o caminho de lancha, logo é possível se ver uma grande quantidade de pássaros, pequenos barcos de pesca e armadilhas de camarão. Anderson Santos Nascimento, barqueiro e presidente de uma das várias associações que fazem a rota para o Combu, fala com entusiasmo sobre movimento dos turistas na região. Há pelo menos 30 anos ele trabalha com a travessia Combu-Belém. E hoje, além do transporte, ele já oferece passeios pelos canais, furos e trilhas no interior da ilha.

Na opinião de Santos, o turismo na ilha tem avançado bastante, embora as comunidades ainda estejam se preparando para receber essa demanda. “Tem sido um crescimento bom, pois tem deixado um retorno para as comunidades, tanto para as pessoas que trabalham na ilha quanto no transporte. Os turistas de fora do Pará ficam muito encantados quando chegam aqui. Já tive até que segurar um cearense que queria se jogar no rio, pois nunca tinha visto algo igual”, gargalha o barqueiro.

Um dos pontos famosos do turismo da ilha é a localidade onde são fabricados os chocolates artesanais com a marca “Filha do Combu”. No meio do terreiro, se ergue uma samaumeira centenária. Mais adiante, uma casa de alvenaria com um vasto quintal de cacaueiros, açaizeiros e pés de cupuaçu – que já estavam lá quando o avô de Patrícia Costa, 32, chegou para construir a residência.

A família de Patrícia possui um negócio que veio crescendo e tomando forma nos últimos oito anos. A virada veio quando decidiram comercializar a antiga receita de família e transformá-la em um produto de altíssima qualidade, reconhecido até mesmo por chefes renomados, como o paraense Thiago Castanho.

“Meu avô foi um dos primeiros moradores da ilha. E ele tinha o costume de fazer um chocolate caseiro para a família e para visitas. A tradição foi repassada de geração em geração. Assim meus pais também me ensinaram e hoje chegamos a este produto. A minha mãe, dona Nena, é a principal administradora e foi quem montou o negócio como é hoje”, conta Patrícia, orgulhosa, de olho no cacau que seca ao sol. Ela é a própria Filha do Combu.

As qualidades únicas do cacau nativo são defendidas pela guardiã das tradições da família. “Utilizamos isso para valorizar ainda mais os nossos doces, que são feitos de maneira artesanal. Nós já adicionamos diversas técnicas de manuseio para melhorar o armazenamento, transporte, mas a essência é a mesma”.

Orgânicos no paraíso – Na casa onde Patrícia e a família fabricam os doces, os visitantes são recebidos com um café da manhã feito com os frutos abundantes na ilha. A partir dali, eles podem caminhar pelas trilhas do terreno para ver as frutas maduras, ainda no pé, as sementes ao sol e também conhecer como é feito o manejo das árvores – que de acordo com o Ideflor-bio são nativas e totalmente livres de produtos agrotóxicos.

“É fantástico quando a gente começa a entrar na trilha e descobrir tudo isso aqui escondido, tão perto da cidade. Temos uma produção familiar e um exemplo de alimentação orgânica em seu lugar de origem”, anima-se Caterine Tavares, psicóloga que mora em Belém. Era a sua pela primeira visita ao Combu. “Vim a convite do meu professor de Yoga, Radha Mohan Dasa. E eu achava que era uma coisa muito difícil chegar aqui, mas não é. A travessia foi ótima. Andar descalça neste terreno, tomar um bom suco e experimentar até mesmo o chocolate de cupuaçu foi maravilhoso”.

No local, além do chocolate em barra, também se produzem brigadeiros com granulados de sementes tostadas, pós de chocolate, pó de cacau e o chocolate derivado da semente do cupuaçu – apelidado de cupulate. “Temos aqui orientações técnicas da Emater [Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará] para melhorar o manejo das nossas árvores frutíferas. E o Ideflor também tem nos orientado em relação ao turismo. Já tivemos visitas até mesmo do Thiago Castanho, que fez elogios à qualidade do nosso cacau”, comemora Patrícia.

Planejamento – Atividades de gestão e turismo fazem parte do projeto Agrovárzea, do Ideflor-bio. A meta é fomentar o desenvolvimento das cerca de 200 famílias que integram as comunidades residentes na ilha do Combu, em equilíbrio com a preservação do ecossistema local.

O projeto Agrovárzea tem como base três linhas de ação. Capacitar produtores para que façam o manejo adequado de suas produções, e também fomentar o turismo rural e a comercialização direta de produtos. “Este último ponto é importante, pois pretendemos criar redes de contatos para reduzir a ação de atravessadores. Desta forma, melhoramos o preço de venda e de compra, tanto para a comunidade quanto para os consumidores”, explica Rosângela Silva, técnica de gestão ambiental do Ideflor-bio.

O Combu engloba uma área verde preservada equivalente a 1,5 mil campos de futebol (cerca de 1.500 hectares). Sua transformação em área de preservação ambiental (APA) aconteceu apenas em 1997. Paralelamente às ações de desenvolvimento do turismo rural na região, também será aplicado um plano de gestão da ilha, que definirá todas as regras sobre o que pode ser explorado e também sobre de que forma isso será feito.

“O Plano de Gestão tem a mesma funcionalidade de um plano diretor das cidades. Com ele poderemos definir melhor as regras de uso da ilha”, destaca Wendel Andrade, o responsável pela Diretoria de Gestão e Monitoramento de Unidades de Conservação da Natureza do Ideflor-bio. “O mais importante é perceber hoje que a existência dessas unidades de conservação não é uma barreira, mas uma grande oportunidade para o desenvolvimento orientado e de baixo impacto em regiões como a ilha do Combu”.

Como chegar ao Combu
A partir da Universidade Federal do Pará (UFPA), existem vários pequenos portos ao longo da avenida Bernardo Sayão. O local mais comum para a travessia está localizado na praça Princesa Izabel. Os preços da travessia podem variar entre R$ 5 e R$ 10.

Passeios
Passeios de lancha pelos furos de rio no interior da ilha podem ser agendados com a associação de barqueiros, pelo telefone (91) 98845 9807. Os preços variam conforme o passeio combinado.

Visita ao casarão Filha do Combu
O pacote completo, que inclui o café da manhã, trilha e degustação, custa R$ 25 por pessoa. Antes de ir é preciso agendar a visita pelos telefones (91) 98873 5284 ou (91) 99616 0648. Email: combuorganico@gmail.com

Fonte:agenciapara.com.br

Jaqueline Alves

Graduada em Ciências Sociais e Engenheira Ambiental. Especialista em Direito Ambiental; Direito Municipal; Gestão Pública; Engenharia e Segurança do Trabalho; MBA em Petróleo e Gás e Auditoria Ambiental

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