Brasileira conta como é ser copiloto nos Emirados Árabes: “Cansei de ouvir que pilotava bem apesar de ser mulher”

"Aos 5 anos, voando com meu pai, descobri o que queria fazer da vida" (Foto: Arquivo Pessoal)

“Me lembro como se fosse ontem a primeira vez que voei. Foi em um avião super pequeno, o P-56, popularmente conhecido como “Paulistinha”. O piloto? Meu pai. O sr. Nilton, aliás, é o cara responsável por me fazer amar tanto a aviação. Na época, eu tinha 5 anos e, juntos, sobrevoamos a nossa cidade, Itápolis, no interior de São Paulo. Foi ali, naquele momento, que descobri o que queria fazer da vida.

Mas não foi só a paixão – minha e do meu pai – pela aviação que me fez piloto. Confesso que tive um pouco de sorte também, viu? Primeiro porque Itápolis, apesar de pequena (lá moram cerca de 35 mil habitantes), abriga a maior escola de aviação do Brasil. O povo respira isso! Meu pai, por exemplo, mesmo trabalhando com comércio, teve por anos a sua carteirinha de piloto privado em dia. Segundo por causa da mente aberta do sr. Nilton, que sempre me incentivou a fazer de tudo e nunca separou as atividades “de menina e de menino” entre mim e meu irmão. Para ele, o importante não era o que eu fizesse, mas que concluísse de maneira bem-feita – e esse é meu mantra até hoje.

Flávia Lucílio (Foto: Reprodução)
Preparar para a decolagem

Saí de Itápolis aos 18 anos para estudar Ciências Aeronáuticas em Bauru, também no interior de SP, e retornei dois anos depois para dar aulas de instrução de voo. Antes de entrar em uma companhia de linha, é comum que se trabalhe como instrutora de voo ou pilote aviões de táxi-aéreo. Por isso, foram dois anos e meio lecionando até que, em 2009, aos 21 anos, eu era – enfim – aprovada na Azul, como copiloto.

A seleção é rigorosa e exige muito conhecimento técnico e prático. Além do teste em um simulador (que é idêntico a um avião tripulado), há uma prova técnica sobre regulamentação e entrevista com o piloto-chefe da companhia. O papo serve para avaliar, principalmente, o seu nível do CRM, o Corporate Resources Management. Em português claro: eles querem saber se todas as regras e recursos disponíveis para garantir a segurança do voo dos passageiros e da tripulação – os quais aprendemos na faculdade e trabalhando com aviação – estão na ponta da língua.

Se nunca me esqueci do primeiro voo em um “Paulistinha”, imagina só pilotar – pela primeira vez – um Embraer 190, com capacidade para 106 passageiros? Foi a realização de um sonho! E a estreia já foi cheia de desafios. Isso porque eu decolei de Viracopos – Campinas (SP) com destino ao Aeroporto de Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Se você já teve a sorte de pousar ou decolar deste aeroporto, sabe que o visual do Santos Dumont é inesquecível, com o mar e a vista do morro do Pão de Açúcar. Mas, para quem está pilotando, é um megadesafio lidar com esses ambientes tão próximos da pista – que, por sinal, é curtíssima. Até hoje, foi o lugar mais difícil que já operei.

Após um ano e meio na Azul, fui trabalhar como copiloto na LATAM [na época, TAM], onde comandei meu primeiro voo internacional. Perdi a conta de quantos voos eu fiz para Argentina, Uruguai, Peru e Colômbia. Lá, aprendi a pilotar o Airbus A320, avião grande [com capacidade para cerca de 200 passageiros] e muito tecnológico – o mesmo que piloto hoje, nos Emirados Árabes. E, antes que me questionem, é, sim, super seguro. Muita gente que tem medo de voar me pergunta sobre a segurança da aviação. Sempre digo (com propriedade) que é o meio de transporte mais seguro do mundo. Em quase dez anos de trabalho, nunca tive que lidar com uma situação de risco, como um pouso de emergência por pane elétrica. É claro que já rolaram chuvas, trovões, pouso na neve (sim, aconteceu lá na Ásia), que são situações que pedem concentração e aplicação do CRM. Mas, nunca, nunca mesmo, me deparei com algo que colocasse a vida dos passageiros em risco. Ainda bem!

Hong Kong e Abu Dhabi: embarque imediato
Quatro anos depois, fiz as malas para o maior desafio da minha carreira: ser copiloto na Hong Kong Express, na China. A aviação permite esse intercâmbio de profissionais, justamente porque os processos são globalizados. A maneira que opero um Airbus no Brasil é a mesma na Ásia, por exemplo, e o idioma que nos comunicamos com os controladores é o inglês – quando um deles não fala, embarcamos um funcionário navegador para traduzir e dá certo.

Por tudo isso, a dificuldade foi praticar o desapego. Como senti falta dos meus pais e do Brasil… Sem contar que foram Natais e Réveillons trabalhando, sem poder voltar para casa. Mas, se tem uma coisa que aprendi foi aproveitar 100% os momentos off. Entendi que uma semana bem aproveitada com a família vale mais que passar a noite de Natal com eles e se distraindo no celular.

Assim como o avião, tenho asas nas costas. Em 2016, após dois anos na China, fiz as malas novamente. Desta vez, para Abu Dhabi, trabalhar na Etihad Airways, onde estou até hoje. Ainda no Brasil, já sonhava pilotar no Oriente Médio, justamente porque as empresas aéreas de lá são famosas pela cordialidade com os funcionários e pelos ótimos pacotes de emprego – temos auxílio-moradia e bolsa de estudo para futuros filhos.

"No Oriente Médio, os homens apertam a mão do piloto, mas da mulher, não" (Foto: Arquivo pessoal)

Além da distância, lidar com culturas tão diferentes também é um grande desafio. No mundo árabe, os Emirados são o país mais liberal com relação às mulheres. A própria Etihad tem pilotos mulheres locais. A aceitação feminina na aviação (lugar majoritariamente masculino), aliás, é melhor nos Emirados que na China, onde vivi situações em que o preconceito aparecia de maneira velada, mas aparecia! Cansei de ouvir que “pilotava bem apesar de ser mulher”. Um “elogio” preconceituoso, pois não é por ser mulher que eu pilotaria menos, né? A dedicação é que me faz boa profissional.

No Oriente Médio, em contrapartida, você tem que tomar cuidado com as atitudes e o modo de se vestir, pois dá para ser mal interpretada. Na Arábia Saudita [onde elas só receberam o direito de dirigir em junho passado], a mulher é obrigada a usar a Abaya, um longo vestido negro, que se estende até os pés, além do lenço cobrindo a cabeça. Como sou estrangeira, não preciso usar. Mas, no Irã, onde já pousei, não costumo sair da cabine. Se descesse para fazer a inspeção externa do avião, procedimento comum, teria que cobrir a cabeça, como respeito.

Mas nada disso me incomoda. É a cultura deles. Por isso, entendo e respeito o protocolo. Já me acostumei, também, com o fato de que, no Oriente Médio inteiro, os homens cumprimentam o piloto com aperto de mãos, mas a piloto mulher, não. A explicação é que eles não podem tocar uma mulher que não é a deles. O contato visual também é limitado. Olhar nos olhos é expressar desejo.

O amor está no ar
Abu Dhabi não só me presenteou com um emprego, mas completou meu coração. Foi lá que me casei com o Félix, meu marido há dois anos. Ele é brasileiro, piloto da Emirates e nos conhecemos ainda na época da TAM. Nos encontramos novamente quando vim trabalhar na Etihad e, em poucos meses de namoro, nos casamos na Embaixada do Brasil nos Emirados. Nossa rotina é complicada. Apesar de eu operar mais voos de short haul [os de menor distância e que permitem retorno em 12 horas] nos vemos, em média, a cada três dias. Mas não importa. É bom demais ter alguém por quem voltar.

Só posso ser grata à aviação. Ela me deu uma profissão, um amor e a possibilidade de conhecer tantas pessoas e lugares incríveis. Até hoje, visitei mais de 60 países. Por isso, todos os dias, me esforço para devolver um pouco a ela. O sonho agora é me tornar comandante – a promoção na Etihad exige 5.500 horas de voo e mais alguns anos como copiloto. Mas, sem pressa. Até lá, continuarei voando feliz.”

Flávia Lucílio (Foto: Reprodução)
Fonte: Glamour

Jaqueline Alves

Graduada em Ciências Sociais e Engenheira Ambiental. Especialista em Direito Ambiental; Direito Municipal; Gestão Pública; Engenharia e Segurança do Trabalho; MBA em Petróleo e Gás e Auditoria Ambiental

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