Canaã dos Carajás: Mina do Sossego não dá tranquilidade a povoado

Akira Onuma / O Liberal

Moradores da Vila Bom Jesus, na zona rural de Canaã dos Carajás, não dormem mais direito. Eles temem um acidente na Mina do Sossego, da Vale, distante aproximadamente seis quilômetros daquela comunidade. Eles contam que a Vale usa explosivos para a extração de cobre. E que essas explosões causaram rachaduras em várias casas da vila, onde moram 600 famílias – o equivalente a mais de mil pessoas. “Explode lá e treme aqui”, disse a dona de casa Danierika Barbosa, mostrando as rachaduras nas paredes de sua casa, que fica na avenida Sossego.

Ela contou que, no dia do acidente em Brumadinho, uma funcionária da Vale foi à vila e conversou com os moradores. “Ela disse para a gente que a mina é segura. Se fosse segura, por que colocaram sirene há um mês?”, questionou. A sirene serve para alertar os moradores em caso de um acidente.

Danierika Barbosa mostra rachaduras na casa onde mora, que seriam provocadas por explosões em mina
Danierika Barbosa mostra rachaduras na casa onde mora, que seriam provocadas por explosões em mina (Akira Onuma / O Liberal)

 

Danierika disse que acorda toda noite chorando, pensando em seus três filhos. A mais nova tem apenas três meses de vida. “Ninguém dorme mais. Posso ter que sair correndo de casa, porque não tem hora para explodir. Lá em Brumadinho foi às 12 horas. E se isso acontecer à noite, como fica?”, disse. “Só não me mudei porque não tenho para onde ir. Para eles, o que vale é o minério, não é a vida”.

O marido dela, Isaque Barbosa dos Santos, é presidente da Associação dos Moradores da Vila Bom Jesus. “A gente vive em insegurança. Não sabe se (um acidente) pode acontecer à noite, um horário que dificulta mais”, disse Isaque. “Como vai se pensar em construir um futuro com a sua família em um lugar desses?”, completou.

Seu Francisco Adriano de Oliveira, de 68 anos, mora na vila desde 1986 – há 33 anos. “A gente não dorme mais, assombrado”, disse. “Nós estamos correndo risco. A comunidade se sente acuada”. Ao falar sobre a proximidade da vila com a mina, seu Francisco afirmou: “Estamos encostados em uma bomba. Ou nós ficamos ou ela (Vale) sai. Prefiro que ela saia”. Ele lembrou que a vila existe antes da mina.

REUNIÃO

Na terça-feira passada, apreensivos com a tragédia ocorrida em Brumadinho, o presidente da associação dos moradores e membros da comunidade fizeram uma reunião, da qual também participaram três vereadores. Com medo, muitos moradores não querem mais morar na vila. A reunião ocorreu na quadra do colégio, que ficou lotada, com mais de 200 pessoas.

Isaque Barbosa informou que vai encaminhar um ofício à Vale, para que a empresa compareça a uma reunião no próximo dia 6, naquela comunidade. Tema: o “risco que a barragem de rejeito oferece aos moradores da Vila Bom Jesus”, informou.

BRUMADINHO VIROU PESADELO

“A pessoa morrer assim de graça é muito ruim. Tem que esperar Deus vir buscar. Mas não morrer assim, tampado debaixo de lama”, disse José João Pereira, de 71 anos. Ele, a esposa, Maria de Fátima Oliveira, de 69 anos, e o filho, de 29, moram a pouco mais de um quilômetro da Mina do Sossego. “A gente fica preocupado com esse tipo de coisa. Morrer de graça não presta. O senhor acha que presta?”, completou ele, que é mais conhecido como Zezinho.

Maria de Fátima afirma que não está segura morando às proximidades da Mina do Sossego
Maria de Fátima afirma que não está segura morando às proximidades da Mina do Sossego (Akira Onuma / O Liberal)

 

Morando na zona rural de Canaã dos Carajás há mais de dois anos, ele afirmou que, agora, pensa em deixar o local. “Quero sair por causa desse problema”, disse. “A gente fica preocupado. O senhor não ficaria preocupado se estivesse no meu lugar? Morrer debaixo do lameiro, atolado”.

Dona Maria disse que não tem dormido direito e quer sair daquele local. Ela reclama que só Deus, e não um acidente ambiental, pode tirar a vida das pessoas. “A vida da gente só quem resolve é Deus”, disse. “Se acontecer alguma coisa, não dá tempo de correr”. Dona Maria também falou sobre as explosões na mina. “É um papoco para lá. Quebrando não sei se é pedra. Ninguém sabe o que é. É só zuada. Estremece a casa. Fico assustada”, afirmou. O casal não têm televisão em casa e está sem rádio, que, disse dona Maria, “desmantelou”. Mas eles souberam do crime ambiental quando estiveram na sede de Canaã dos Carajás e assistiram ao noticiário nos telejornais. “Fiquei tão preocupada que mandei meu velho vender as coisas aqui, as galinhas, para a gente ir embora. A gente não quer perder a vida assim”, disse dona Maria.

HISTÓRICO

Segundo o site da empresa Vale, “o início da produção Mina do Sossego, em 2004, marcou a entrada da Vale no mercado mundial de cobre e ajudou a transformá-la em uma das maiores empresas de mineração diversificada do planeta.” “Sossego é a primeira mina de cobre da Vale e contribui de forma significativa para o desenvolvimento de Canaã dos Carajás.
Desde 2004, a mineradora já investiu cerca de R$ 200 milhões em obras de infraestrutura e ações para o desenvolvimento econômico e social do município, que melhoraram os serviços nas áreas de saúde, educação, esporte, cultura, segurança pública, saneamento básico e transporte. Todo esse investimento foi realizado em parceria com a prefeitura.”

O MEDO É CONSTANTE

“O povo não tem informação e nem preparação para reagir aos possíveis danos de um acidente em uma barragem, diz Iury Paulino Bezerra, membro da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). “A população vive sem condição de, minimamente, organizar uma defesa de suas vidas, suas comunidades, seus bens”.

Na avaliação do MAB, a segurança de barragens é um direito que tem sido negado às populações atingidas. “Nós não temos a oportunidade de debater, discutir os riscos que uma barragem pode causar à região onde ela está instalada – seja barragem de rejeitos de mineração ou para usinas hidrelétricas”, disse Iury Paulino.

Ao ser implantada, a barragem muda todo o território. E a população passa a conviver com uma nova realidade. “E sem conhecer os riscos, que são constantes e que, muitas vezes, aparecem mais quando causam grandes tragédias, como em Mariana e, agora, em Brumadinho”, disse.

Fonte: Oliberal

Jaqueline Alves

Graduada em Ciências Sociais e Engenheira Ambiental. Especialista em Direito Ambiental; Direito Municipal; Gestão Pública; Engenharia e Segurança do Trabalho; MBA em Petróleo e Gás e Auditoria Ambiental

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