Conheça 10 lendas da Amazônia que mexem com imaginário popular

Iara, Cobra Grande, Mapiguari, Curupira e Matinta Perera são alguns exemplos do folclore regional presente no imaginário popular

O folclore brasileiro é rico em histórias. Quem nunca ouviu de seus avós ou pais, as fantásticas lendas que cercam o imaginário do amazônida? Nesta segunda-feira (22), é comemorado o Dia do Folclore Nacional e para comemorar, o Portal Amazônia selecionou 10 lendas bastante populares na região. Confira:

Lenda de Iara

É uma das histórias mais conhecidas da Amazônia. A Iara é descrita como uma linda mulher morena, de cabelos negros e olhos castanhos. Ela exerce grande fascínio nos homens e aqueles que a vêem banhar-se nos rios não conseguem resistir aos seus encantos e atiram-se nas águas. Eles nem sempre voltam vivos e os que sobrevivem, ficam assombrados, falando em castelos, séquitos e cortes de encantados.

É preciso muita reza e pajelança para quebrar o encantamento. Alguns descrevem Iara com uma cintilante estrela na testa, que funciona como chamariz que atrai e hipnotiza os homens.

Acredita-se também que ela tem forma de peixe na parte inferior do corpo, outros dizem que é apenas um vestido, ou uma espécie de saia que ela veste por vaidade e para dar a ilusão de ser metade mulher, metade peixe. Em certos locais, dizem que a Iara é um boto-fêmea. Em outros lugares dizem ser a própria boiúna (cobra grande).

Lenda da Cobra Grande

A Cobra Grande, ou Boiúna, é uma lenda amazônica que fala de uma imensa cobra que cresce de forma desmensurada e ameaçadora, abandonando a floresta e passando a habitar a parte profunda dos rios.  Ao rastejar pela terra firme, os sulcos que deixa se transformam nos igarapés.

Conta a lenda que a Cobra Grande pode se transformar em embarcações ou outros seres. Ela está presente em diversos contos indígenas, um deles conta que em uma certa tribo, uma índia, grávida da Boiúna, deu à luz a duas crianças gêmeas. Uma delas, má, atacava os barcos, naufragando-os. A história tornou-se célebre no poema Cobra Norato, de Raul Bopp, sendo encenado inclusive, em teatros de vários países.

No mundo real, a verdadeira cobra grande é na verdade a sucuriju, ou sucuri, a temida anaconda. O animal pode atingir mais de 10 metros de comprimento. Ela mata as presas por constrição, apertando-as até a morte.

Celebrizada em filmes de terror, é temida pela população ribeirinha, pois habita as áreas inundáveis e é dotada de grande força, sendo capaz de neutralizar qualquer tentativa de defesa da vítima.


Cena do filme ‘Anaconda’. Foto: Reprodução

Lenda do Mapinguari

Os caboclos contam que dentro da floresta vive o Mapinguari, um gigante peludo com um olho na testa e a boca no umbigo. Para uns, ele é realmente coberto de pelos, porém usa uma armadura feita do casco da tartaruga. Para outros, a sua pele é igual ao couro de jacaré.

Há quem diga que seus pés têm o formato de uma mão de pilão. O Mapinguari emite um grito semelhante ao grito dado pelos caçadores. Se alguém responder, ele logo vai ao encontro do desavisado, que acaba perdendo a vida.

 A criatura é feroz e não teme nem caçador, porque é capaz de dilatar o aço quando sopra no cano da espingarda. Os ribeirinhos amazônicos contam muitas histórias de grandes combates entre o Mapinguari e valentes caçadores.
 O Mapinguari sempre leva vantagem e os caçadores que conseguem sobreviver, muitas vezes ficam aleijados ou com terríveis marcas no corpo para o resto da vida. Há quem diga que o Mapinguari só anda pelas florestas de dia, guardando a noite para dormir.
 Quando anda pela mata, vai gritando, quebrando galhos e derrubando árvores, deixando um rastro de destruição. Outros contam que ele só aparece nos dias santos ou feriados.

Dizem que ele só foge quando vê um bicho-preguiça. O que ninguém explica é porque ele tem medo justamente do seu parente, já que é considerado um bicho-preguiça pré-histórico.


Mapinguari. Ilustração: Amarina Prado

Lenda do Curupira

O Curupira é o guardião das florestas e dos animais. Possui traços indígenas, cabelo de fogo e os pés virados para trás. Dizem que possui o dom de ficar invisível.

O curupira  é o protetor daqueles que sabem se relacionar com a natureza, utilizando-a apenas para a sua sobrevivência. O homem que derruba árvores para construir sua casa e seus utensílios, ou ainda, para fazer o seu roçado e caçar apenas para alimentar-se, tem a proteção do Curupira. Mas aqueles que derrubam a mata sem necessidade, os que caçam indiscriminadamente, estes têm no Curupira um terrível inimigo e acabam caindo em suas armadilhas.

Para se vingar-se, o Curupira se transforma em caça. Pode ser uma paca, onça ou qualquer outro bicho que atraia os caçadores para o meio da floresta, fazendo-o perder a noção de seu rumo e ficar dando voltas no mato, retornando sempre ao mesmo lugar.

Outra forma de atingir os maus caçadores é fazendo com que sua arma não funcione ou fique incapaz de acertar qualquer tipo de alvo, principalmente a caça. Na realidade, a lenda do Curupira revela a relação dos índios brasileiros com a mata. Não é uma relação de exploração, de uso indiscriminado, mas de respeito pela vida.


Curupira. Foto: Divulgação

Lenda do Pirarucu

Pirarucu era um índio que pertencia à tribo dos Uaiás. Era um bravo guerreiro, mas tinha um coração perverso, mesmo sendo filho de Pindarô, um homem de bom coração, chefe da tribo. Egoísta e cheio de vaidades, Pirarucu adorava criticar os deuses. Um dia ele aproveitou a ausência do pai para tomar índios da sua tribo como reféns e executá-los sem nenhum motivo.

Tupã, o deus dos deuses, decidiu puni-lo chamando Pólo para que espalhasse o seu mais poderoso relâmpago. Também convocou Iururaruaçu, a deusa das torrentes, e ordenou que provocasse a mais forte tempestade sobre Pirarucu quando estava pescando com outros índios às margens do Rio Tocantins.

O fogo de Tupã foi visto por toda floresta. Pirarucu tentou escapar, mas foi atingido no coração por um relâmpago fulminante. Todos que estavam com ele correram para a selva assustados.

O corpo de Pirarucu, ainda vivo, foi levado para as profundezas do Rio Tocantins e transformado em um gigante e escuro peixe. Acabou desaparecendo nas águas e nunca mais retornou, mas por um longo tempo aterrorizou toda a região.


Pirarucu. Foto: Divulgação

Lenda do Guaraná

Um casal de índios pertencente a tribo Maués vivia junto por muitos anos sem ter filhos. Um dia eles pediram a Tupã para dar a eles uma criança para completar suas vidas. Tupã, sabendo que o casal era bondoso, lhes atendeu o desejo dando a eles um lindo menino.

O tempo passou e o menino cresceu bonito, generoso e querido por todos na aldeia. No entanto, Jurupari, o deus da escuridão e do mal, sentia muita inveja do menino e decidiu matá-lo. Certo dia, o menino foi coletar frutos na floresta e Jurupari aproveitou a ocasião para lançar sua vingança. Ele se transformou em uma serpente venenosa que atacou e matou o menino.

A triste notícia se espalhou rapidamente. Neste momento, trovões ecoaram e fortes relâmpagos caíram pela aldeia. A mãe, que chorava em desespero, entendeu que os trovões eram uma mensagem de Tupã, dizendo que deveriam plantar os olhos da criança e que deles uma nova planta cresceria dando saborosos frutos.

Assim foi feito e os índios plantaram os olhos da criança. No lugar cresceu o guaraná, cujas sementes são negras rodeadas por uma película branca, muito semelhante ao olho humano.


Fruto do Guaraná. Foto: Divulgação

Lenda do Monte Roraima

Os índios Macuxi contam que antigamente, no local onde hoje existe o Monte Roraima, existiam apenas terras baixas e alagadiças, cheias de igapó. As tribos que viviam naquela área não precisavam disputar comida, pois a caça e a pesca eram fartas. Uma vez, nasceu um belo pé de bananeira. A estranha planta cresceu muito rápido e deu belíssimos e apetitosos frutos.

Os pajés avisaram a todos que aquele vegetal era um ser sagrado e que como tal seus frutos eram proibidos para qualquer pessoa da tribo. Eles disseram ainda que caso alguém desobedecesse a regra e tentasse comer uma fruta daquelas, desgraças terríveis aconteceriam: a caça se tornaria rara, as frutas secariam e até a terra iria tomar um formato diferente. Era permitido comer de tudo, menos os frutos da bananeira sagrada.

Todos passaram a temer e a respeitar as ordens dos pajés. Mas houve um dia em que, ao amanhecer, todos correram para ver com espanto a primeira desgraça de muitas que ainda estavam por vir: um cacho da bananeira havia sido decepado. Todos se perguntavam, mas ninguém sabia dizer quem poderia ter feito aquilo. Antes que tivessem tempo para descobrir o culpado, a previsão dos mais velhos começou a acontecer.

A terra começou a se mover e os céus tremiam em trovões. Todos os animais, da terra ou do céu, bateram em retirada. Um dilúvio começou a despencar e um enorme monte começou a brotar rasgando aquelas alagadas terras. E foi assim que nasceu o Monte Roraima. É por tudo isso que, até os dias de hoje, acredita-se que o monte Roraima chora quando de suas pedras caem pequenas gotas de água cristalina.


Casal faz ensaio fotográfico no Monte Roraima. Foto: Cedida/Rodrigo Tomzinsky

Lenda dos rios Xingu e Amazonas

A origem dos rios Xingu e Amazonas também faz parte do imaginário indígena. Dizem que antigamente era tudo seco. Na Floresta Amazônica não tinha água nem rio. A ave Juriti era a dona da água e a guardava em três tambores.

Certo dia, os três filhos de Cinaã estavam com sede e foram pedir água para o passarinho. Ele não deu e disse:

– Seu pai é Pajé muito grande, por que não dá água para vocês?

Eles  voltaram para casa chorando muito. Cinaã perguntou porque estavam chorando e eles contaram. Cinaã disse para eles não irem mais lá que era perigoso, tinha peixe grande dentro dos tambores. Mas eles foram assim mesmo e quebraram os tambores. Quando a água saiu, Juriti virou bicho.

Os irmãos pularam longe, mas o peixe grande que estava lá dentro engoliu Rubiatá (um dos irmãos), que ficou com as pernas para fora da boca do peixe. Os outros dois irmãos começaram a correr e foram fazendo rios e cachoeiras com a corrida. O peixe grande foi atrás levando água e fazendo o rio Xingu.

Continuaram  a correr até chegar no Amazonas. Lá os irmãos pegaram Rubiatá, que estava morto. Cortaram suas pernas, pegaram o sangue e sopraram. Rubiatá virou gente novamente. Depois eles sopraram a água no Amazonas e o rio ficou muito largo.

Voltaram para casa e disseram que haviam quebrado os tambores e que teriam água por toda a vida para beber.


Foto: Reprodução/Governo Federal

Lenda da Matinta Perera

Conta a lenda, que à noite, um assobio agudo perturba o sono das pessoas e assusta as crianças, ocasião em que o dono da casa deve prometer tabaco ou fumo. Ao ouvi-lo, o morador diz: – Matinta, pode passar amanhã aqui para pegar seu tabaco. No dia seguinte uma velha aparece na residência onde a promessa foi feita, a fim de apanhar o fumo.

A velha é uma pessoa do lugar que carregaria a maldição de ‘virar’ Matinta Perera, ou seja, à noite transformar-se neste ser indescritível que assombra as pessoas. A Matinta Perera pode ser de dois tipos: com asa e sem asa. A que tem asa pode transformar-se em pássaro e voar nas cercanias do lugar onde mora. A que não tem, anda sempre com um pássaro, considerado agourento, e identificado como sendo ‘rasga-mortalha’.

Dizem que a Matinta, quando está para morrer, pergunta: “Quem quer? Quem quer?”. Se alguém responder “eu quero”, pensando em se tratar de alguma herança de dinheiro ou jóias, recebe na verdade a sina de ‘virar’ Matinta Perera.


Cena do filme ‘Matinta Perera’. Foto: Reprodução/YouTube

Lenda da Vitória Régia

Há muitos anos, nas margens do majestoso rio Amazonas, as jovens e belas índias de uma tribo, se reuniam para cantar e sonhar seus sonhos de amor. Elas ficavam por longas horas admirando a beleza da lua branca e o mistério das estrelas sonhando um dia ser uma delas.

Enquanto o aroma da noite tropical enfeitava aqueles sonhos, a lua deitava uma luz intensa nas águas, fazendo Naiá, a mais jovem e mais sonhadora de todas, subir numa árvore alta para tentar tocar a lua. Ela não obteve êxito. No dia seguinte, ela e suas amigas subiram as montanhas distantes para sentir com suas mãos a maciez aveludada da lua, mas novamente falharam.

Quando elas chegaram lá, a lua estava tão alta que todas retornaram à aldeia desapontadas. Elas acreditavam que se pudessem tocar a lua, ou mesmo as estrelas, se transformariam em uma delas. Na noite seguinte, Naiá deixou a aldeia esperando realizar seu sonho. Ela tomou o caminho do rio para encontrar a lua nas negras águas. Lá, imensa, resplandescente, a lua descansava calmamente refletindo sua imagem na superfície da água. A índia, em sua inocência, pensou que a lua tinha vindo se banhar no rio e permitir que fosse tocada.

Naiá mergulhou nas profundezas das águas desaparecendo para sempre. A lua, sentindo pena daquela jovem vida perdida, transformou a índia em uma flor gigante – a Vitória Régia – com um inebriante perfume e pétalas que se abrem nas águas para receber em toda sua superfície, a luz da lua.

Jaqueline Alves

Graduada em Ciências Sociais e Engenheira Ambiental. Especialista em Direito Ambiental; Direito Municipal; Gestão Pública; Engenharia e Segurança do Trabalho; MBA em Petróleo e Gás e Auditoria Ambiental

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