Conheça a história do bairro da Condor, que homenageia uma empresa aérea alemã

Igor Mota / Redação Integrada de O Liberal

A praça Princesa Isabel é onde ficava o aeroporto operado pelo Syndicato Condor, que deu nome ao bairro (Igor Mota / Redação Integrada de O Liberal)

Se alguém achou que o bairro da Condor tem esse nome em homenagem ao pássaro, achou errado. O nome desse pequeno território, entre os bairros do Jurunas, Guamá e Cremação, é uma homenagem ao Syndicato Condor, uma empresa aérea alemã, que operava um aeroporto onde hoje é a praça Princesa Isabel, na avenida Bernardo Sayão. Isso mesmo. Ali já foi um aeroporto e uma área central e importante para a integração de Belém com o Brasil e o mundo.

Em abril de 1936, a Condor chegou a Belém, como uma subsidiária de outra empresa alemã, a Lufthansa, como relata o escritor paraense Salomão Laredo e o professor Diego Pereira, coordenador do curso de História da Unama.

A integração aérea entre Belém e o Rio de Janeiro em um dia e meio; ou com a Europa em três dias, animou a elite paraense. Houve muita festa e burburinho. Os serviços postais da época tinham selos e carimbos comemorativos.

EMPRESA PIONEIRA

“Foram muitos voos pioneiros da empresa na América Latina e transatlânticos. Um dos mais conhecidos foi em 1934, com 37 quilos de correspondência, cobrindo 13.283 quilômetros em 66 horas e 12 minutos”, observa Diego. Na década de 1930, o governo Vargas começou a se interessar pelo nazifascismo alemão, uma aproximação que facilitou a chegada da Condor. Esse interesse de Vargas levou à implantação do “Estado Novo”, em 1937.

A empresa, em 1934, ainda não estava em Belém. No entanto, essa informação sobre o voo histórico revela como a empresa era vista como revolucionária no transporte aéreo. E por que foi tão homenageada quando passou a operar por aqui. Era algo impressionante para a sociedade belemense daquela época. Uma honra.

O primeiro avião que chegou no terminal da praça Princesa Isabel, que tinha apenas uma ponte de madeira, forçou a imprensa local a fazer jornais especiais, em edições noturnas, para noticiar aquele momento.

Salomão Laredo observa que por isso a pronúncia do nome do bairro segue o sotaque alemão: lê-se “Côn-dor”, ao invés do nome do pássaro, pronunciado “con-dôr”. É claro que ali perto abriu um bar com o mesmo nome, já que tanta gente queria ir ao local para conhecer a empresa e os aviões dos quais tanto se falava na cidade.

OCUPAÇÃO E DESENVOLVIMENTO SEM A MESMA POMPA

O bairro estava em processo de ocupação. Desde o início, muito pobre. Assim como Guamá e Jurunas, foi uma área ocupada por ribeirinhos em busca de oportunidades. Mesmo com a chegada da famosa e moderna empresa alemã de hidroaviões, não houve muito desenvolvimento trazido ao entorno. Próximo dali, funcionava outra área de interesse das elites: o Iate Clube do Pará.

O Iate Clube, hoje também um espaço com aspecto abandonado, ajudava a compor um cenário central e elitizado que o bairro da Condor um dia teve

O Iate Clube, hoje também um espaço com aspecto abandonado, ajudava a compor um cenário central e elitizado que o bairro da Condor um dia teve (Igor Mota / Redação Integrada de O Liberal)

Atualmente, cerca de 43 mil pessoas habitam o bairro. É uma área bem mista entre habitações e comércio. Ainda por ser uma área próxima ao rio, a economia se baseia bastante em produtos trazidos pelos ribeirinhos. E na venda de produtos para esse público.

Há várias pequenas feiras e comércios no bairro, além de um dos mercados portuários mais tradicionais de Belém, o Porto de Palha. No entanto, o Porto da Palha é um retrato de como o resto do bairro é tratado e tem sinais claros de abandono.

Porto da Palha é um espaço com sinais evidentes de abandono. Foi um dos elos entre ribeirinhos e o processo de ocupação de Belém a partir da avenida Bernardo Sayão. É uma das feiras mais antigas do bairro.

Porto da Palha é um espaço com sinais evidentes de abandono. Foi um dos elos entre ribeirinhos e o processo de ocupação de Belém a partir da avenida Bernardo Sayão. É uma das feiras mais antigas do bairro. (Igor Mota / Redação Integrada de O Liberal)

Naquela área havia uma vida muito boêmia, diz o professor Diego. Sempre houve muitos bares e botecos na Condor. Um dos mais famosos, além do bar da Condor, foi o Palácio dos Bares, um sucesso entre as décadas de 1940 e 1960. Há estabelecimentos inclusive na praça onde foi o terminal da empresa aérea alemã.

A praça Princesa Isabel continuou com um perfil atrelado ao transporte. Mas nem de perto se vê hidroaviões por ali. Hoje, assim como em muitos pontos do bairro, há aspecto de abandono e índices deprimentes de violência. A praça e um dos principais elos entre o centro de Belém e a região das ilhas, sobretudo a ilha do Combu, queridinha de turistas locais e estrangeiros.

Para Diego, para que a Condor volte a ter um perfil desenvolvido, na construção de uma Belém do futuro e que respeita a própria história, políticas de segurança pública e educação são fundamentais. O historiador vê com preocupação os índices de criminalidade. Em 2017, o bairro foi palco de uma chacina, que matou cinco pessoas.

“Agora quando passar pela Bernardo Sayão, olhe com mais atenção para a praça Princesa Isabel. Ali já foi um dos lugares mais importantes da capital. Seu aeroporto”, conclui Salomão Laredo.

Fonte: O liberal

Jaqueline Alves

Graduada em Ciências Sociais e Engenheira Ambiental. Especialista em Direito Ambiental; Direito Municipal; Gestão Pública; Engenharia e Segurança do Trabalho; MBA em Petróleo e Gás e Auditoria Ambiental

Artigos relacionados

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.