Em entrevista, Paulo Artaxo aborda linhas de pesquisas sobre o clima

Quando as mudanças climáticas ainda “não estavam na moda no mundo científico”, o professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Eduardo Artaxo Netto, já investigava o impacto das emissões de gases e partículas em queimadas na Amazônia para o clima global. O trabalho era realizado na Nasa (sigla em inglês de National Aeronautics and Space Administration; Administração Nacional do Espaço e da Aeronáutica), nos Estados Unidos, ao lado do Prêmio Nobel de química Paul Crutzen, em 1980.

Paulo Artaxo (Foto: Bob Paulino)
Paulo Artaxo atua no âmbito das pesquisas sobre o clima (Foto: Bob Paulino)

Hoje, o tema está no centro da agenda mundial e o acadêmico continua debruçado sobre a Floresta Amazônica por acreditar que, assim como a Antártica e o Ártico, trata-se de uma região-chave para a obtenção de respostas.

Com mestrado em Física Nuclear e doutorado em Física Atmosférica pela USP, Artaxo Netto trabalhou nas universidades de Antuérpia (Bélgica), Lund (Suécia) e Harvard (EUA). Tem mais de 300 trabalhos científicos publicados e estudos veiculados pelas revistas Science, Nature e Nature Geoscience. É frequentemente requisitado em conferências nacionais e internacionais sobre física e mudanças climáticas. O acadêmico acredita que “é muito difícil fazer boa ciência sem cooperação internacional” e que “o Brasil ocupa lugar de destaque em estudos sobre o clima”.

Globo Universidade – Como o senhor construiu sua linha de pesquisa sobre a Amazônia e qual a sua relação com a região hoje?
Paulo Eduardo Artaxo – Passo boa parte de meu tempo na Amazônia em pesquisas de campo. Oriento estudantes da região e tento contribuir ao máximo para a formação local de recursos humanos e para desvendar os mecanismos que a floresta usa para sustentar sua exuberância. Comecei com os estudos das emissões de queimadas para o clima regional e global e, agora, uma linha importante é tentar entender como a Amazônia funciona como uma entidade integrada. A floresta interage fortemente com a atmosfera e o sistema hidrológico de maneiras ainda não totalmente conhecidas e várias vezes surpreendentes. Suas estratégias de funcionamento são muito espertas às vezes e foram aprimoradas ao longo dos milhares de anos de sua formação.

Paulo Artaxo (Foto: Bob Paulino)
Paulo Artaxo (Foto: Bob Paulino)

GU – Um estudo internacional do qual o senhor participou relacionou a poeira do deserto do Saara com as chuvas na Amazônia. Conclusões dessa investigação podem ajudar a entender melhor aspectos das mudanças climáticas?
PEA – O estudo faz parte do entendimento de como a Amazônia funciona naturalmente, sem a interferência humana. É notável que um deserto como o Saara possa emitir partículas que viajam 10 mil quilômetros para no, final, contribuir com a precipitação aqui, no meio de uma floresta, na América do Sul. As atividades humanas tomam dimensão que pode colocar em jogo o funcionamento do sistema natural da floresta. Estudos como o que realizamos na Amazônia auxiliam a entender processos que são críticos para a manutenção das funções vitais do ecossistema.

GU – Apesar de ter uma base energética considerada limpa, o Brasil está investindo pesado em petróleo. Essa perspectiva não vai na contramão do que a comunidade internacional espera para se reduzir as emissões de gases de efeito estufa? China e Índia, por sua vez, não devem se livrar tão cedo de suas matrizes energéticas de carvão. Como lidar com isso?
PEA – As reservas do pré-sal devem ser encaradas como reservas estratégicas, que podem ser utilizadas com cuidado, após o país implantar um sistema de produção de energia que seja complementado com a utilização de energia solar e eólica, que são tecnologias bem maduras e economicamente viáveis, hoje, em algumas situações. No caso de China e Índia, mecanismos de compensação financeira precisam ser estruturados para viabilizar a substituição da matriz de carvão por tecnologias mais limpas.

GU – Na posição de orientador de mestrandos e doutorandos, o senhor nota atração pelo tema das mudanças climáticas?
PEA – Sim, sem dúvida o tema das mudanças climáticas atrai muita atenção de estudantes, do governo e da população em geral. O Brasil tem forte posição de liderança mundial nesse campo.

GU – Sonhava ser cientista ainda criança? Como foi ingressar na academia?
PEA – A curiosidade de como as coisas funcionavam sempre foi muito forte em minha infância e adolescência. Desmontava relógios, máquinas, tentava arrumar tudo o que estava quebrado. Tinha uma enorme curiosidade em saber como tudo funcionava, tinha muita sede por conhecimento. Lia enciclopédias inteiras, pois adorava descobrir o funcionamento do mundo. E a física me parecia o que mais se aproximava de como o mundo funciona. Também tinha uma queda por psicologia e lia muito Jung, Freud, Melanie Klein, etc.. Isso tinha a ver com a questão de entender ‘como as pessoas funcionavam’, mas parti para o mundo físico, que é muito menos complexo.

Fonte: Globo.Com

Jaqueline Alves

Graduada em Ciências Sociais e Engenheira Ambiental. Especialista em Direito Ambiental; Direito Municipal; Gestão Pública; Engenharia e Segurança do Trabalho; MBA em Petróleo e Gás e Auditoria Ambiental

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