A Fiagril, criada por Marino José Franz, em Lucas do Rio Verde (MT), virou uma gigante

A Fiagril, criada por Marino José Franz, em Lucas do Rio Verde (MT), virou uma gigante de quase R$ 3 bilhões oferecendo crédito e consultoria para pequenos e médios produtores de grãos. Agora, ela quer crescer sem afastar-se de sua origem. saiba como

A cena mais corriqueira nas fazendas de Mato Grosso, com o céu aberto e a soja no ponto máximo de maturação, é encontrar uma colhedeira do grão em movimento, seguida por uma plantadeira de milho. Ela é o exemplo mais acabado da pujança do agronegócio brasileiro, porque isso somente é possível na agricultura tropical. Nos Estados Unidos, por exemplo, que produz em zonas de inverno rigoroso, essa dobradinha é impossível. Mas “não há milagre na produção agrícola”, dizia o agrônomo americano Norman Ernest Borlaug, prêmio Nobel da Paz em 1970 e pai da chamada Revolução Verde. Ele propôs o cultivo intensivo de alimentos, baseado em sementes selecionadas, máquinas e insumos, criando uma receita que levou o mundo a produzir muito mais, a partir de meados do século XX. E não há milagre mesmo: para produzir, antes de tudo, é preciso ousadia. “É preciso acreditar que vai dar certo e cuidar para que isso aconteça”, diz o catarinense Marino José Franz, 53 anos, fundador da Fiagril, empresa com sede em Lucas do Rio Verde, município do médio norte de Mato Grosso, a maior região produtora de grãos do Estado.


Sempre perto:para dar assistência aos produtores,50 agrônomos da Fiagril visitam as fazendas regularmente

A Fiagril, sigla para Fornecedor de Insumos Agrícolas, nasceu justamente vendendo agroquímicos e fertilizantes na região, há 28 anos. Hoje, faz originação de grãos, cultiva sementes e produz biodiesel a partir de soja. Em 2017, começará a processar etanol de milho e está investindo em logística com a abertura de uma rota de escoamento de commodities através de um terminal portuário no Norte do País, previsto para entrar em operação no próximo mês. Franz construiu um negócio que em 2015 faturou R$ 2,9 bilhões, valor 17% acima do ano anterior. Neste ano, a Fiagril deve chegar à marca de R$ 3 bilhões. No País, são poucas as empresas do setor que alcançam esta cifra. No ranking AS 500 MELHORES DA DINHEIRO RURAL 2015, por exemplo, apenas 46 empresas possuem faturamento acima desse valor.  “Fizemos a Fiagril baseada na confiança de que os agricultores iriam produzir cada vez mais”, diz Franz, que tem como sócio Miguel Vaz Ribeiro, que encontra-se afastado da empresa por ser o atual vice-prefeito do município. “Nunca tive dúvida que o Mato Grosso seria um gigante”.


Fidelidade:os irmãos Dalmir(à esq.) e Adenir Batistelli, com sua nova plantadeira, investem em sojae milho na segunda safra. Desde 2004, toda a produçãoé entregue para a Fiagril

Para o executivo, que preside o conselho de administração da companhia, os desafios não têm data marcada em calendários. A Fiagril está em busca de um parceiro capitalizado para tornar o negócio ainda mais robusto. A ajuda para encontrar esse sócio vem sendo prestada pelo banco Rabobank, um dos mais ativos no campo.

Um dos atrativos da Fiagril que mais chama a atenção do mercado é seu modo de operação muito parecido com o de uma cooperativa rural: quase todos os clientes são pequenos e médios produtores. Assim, o grau de fidelidade para a entrega de soja e milho é altíssimo e os serviços de consultoria agronômica são utilizados em larga escala e de forma contínua. Atualmente, dois mil agricultores fazem parte da carteira de clientes da empresa, dos quais 1,5 mil mantêm com ela um relacionamento constante.  Eles detêm áreas de produção de até 500 hectares, nas pequenas fazendas, e em torno de três mil hectares, nas médias. Aliás, esse tipo de propriedade rural está na origem de Lucas do Rio Verde, cidade que nasceu a partir de um assentamento de 203 famílias de agricultores gaúchos sem-terra, realizado em 1981 pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). “Nós crescemos ao acreditar que médios e pequenos proprietários de terras poderiam ser excelentes na produção. Apostamos em parcerias nos momentos bons e também, nos ruins” diz Franz. “E, claro, sempre achamos que produtor sem crédito não produz.”


Bioenergia:a construção de uma usina (à esq.) de biodiesel de soja, em 2008, marcou o início do processo de verticalização da empresa. Agora, o grupo se prepara para erguer uma usina de etanol de milho

O executivo refere-se à primeira fase do negócio, quando a Fiagril foi uma das precursoras do sistema de barter, um tipo de concessão de crédito no qual ocorre a troca de insumos por grãos. Na década de 1990, até o período 2003/2004, a cada três anos de cultivo uma safra quebrava no meio do caminho, levando muitos produtores à falência. Sobreviveram apenas aqueles que conseguiram algum tipo de financiamento, e muitos se socorreram na Fiagril.


Terra fértil: o agricultor Adilson Lemanski, da fazenda Talismã, diz que ainda existe muito espaço para aumentar a produção nas lavouras e que para isso é preciso investir no solo

Há vários casos de sucesso nessa história. Em Sorriso, os irmãos Adenir José Batistelli, 48 anos, e Dalmir Luiz Batistelli, 54 anos, cultivam 2,2 mil hectares de soja, repetindo a segunda safra com milho, na fazenda da família. Eles trocam os grãos por insumos na Fiagril regularmente, desde 2004, além de vender o excedente à empresa. “Sempre encontramos as portas abertas para nós em momentos difíceis”, diz Adenir Batistelli. “Mas isso não é tudo. Ao concentrarmos todos os negócios em um único lugar, ganhamos na gestão, na assessoria contínua para ter à disposição novas tecnologias e na segurança de recebermos insumos na hora certa.”


Crédito salvador: “Sou produtor ainda hoje, por causa da Fiagril”, diz Leandro Hoffmann, socorrido pela empresa na crise dos anos 1990, ao renegociar suas dívidas e fornecer insumos à lavoura

O agricultor Leandro Miguel Hoffmann, da fazenda Irmãos Hoffmann, em Lucas do Rio Verde, cultiva 1,5 mil hectares de soja, com milho na sequência.

Ele diz que os produtores somente aprenderam a trabalhar com segurança, fazendo hedge (proteção), com uma gestão mais afinada e mais consistente do negócio, a partir dos anos 2000. “Sou produtor ainda hoje, por causa da Fiagril”, diz ele. “Enquanto muitas portas se fecharam para mim nas crises, a empresa me acolheu, renegociou minha dívida em cinco anos e me deu crédito para continuar plantando.”

CONCORRENTES Hoje, com o peso extraordinário do agronegócio na economia, a Fiagril não está mais sozinha em Lucas do Rio Verde na disputa pela preferência dos produtores. Na última década, grandes tradings se instalaram no município, entre elas Amaggi, Glencore, Noble, Cargill, Bunge e ADM. Mas, de acordo com o presidente da Fiagril, Jaime Binsfeld, 48 anos, enquanto essas multinacionais buscam grandes agricultores (com fazendas de dez mil hectares, por exemplo), a Fiagril permanece fiel à sua origem, atendendo pequenos e médios produtores. Mesmo assim, a concorrência é grande. Há cerca de 20 empresas que captam grãos no município, segundo Binsfeld. “A fidelidade de tantos agricultores não é garantida apenas por sermos da terra, mas isso ajuda muito e vai continuar a pesar nas decisões dos produtores.”

A Fiagril deve receber nesta safra 3,1 milhões de toneladas de soja e milho, com previsão de chegar a quatro milhões de toneladas na safra 2017/2018. Caso tivesse que cultivar em terras próprias, a empresa precisaria ser dona de cerca de 600 mil hectares.

A região do médio norte, com 16 municípios, é a maior produtora de grãos de Mato Grosso, representando cerca de 30% do total cultivado no Estado. Nessa safra, a previsão é chegar a 9,6 milhões de toneladas de soja e a 8,7 milhões de toneladas de milho, mesmo enfrentando uma das piores secas dos últimos anos no momento do plantio, como ocorreu no final de 2015. “As dificuldades são sempre passageiras”, diz Binsfeld. “Para a frente, só vejo crescimento.”  De acordo com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), dentro de cinco safras, até 2021/2022, a região deverá produzir 60 milhões de toneladas de soja e milho, cerca de três vezes acima da colheita atual.

Na fazenda Talismã, do produtor Adilson Luiz Lemanski, 43 anos, que cultiva 2,2 mil hectares de soja e 1,5 mil de milho de segunda safra, os desafios de produção vêm se tornando regulares. A média dos últimos anos tem sido de 60 sacas de soja por hectare e 90 sacas para o milho. “Não podemos levar em conta este ano, por causa da seca, mas é possível elevar essa régua de produção”, diz ele. “Acho que as fazendas poderiam trabalhar com uma meta de 20% de aumento.”

No manejo dos cultivos, Hoffman e Batistelli afirmam que cuidar da terra pode fazer toda a diferença no negócio. “O que importa é a produtividade”, diz Hoffmann. Nesta safra, ele também está produzindo 60 sacas por hectare. Na anterior, conseguiu apenas 49 sacas. “Neste ano, na minha fazenda, choveu em dois momentos cruciais: na hora certa do plantio e no início do desenvolvimento das plantas.” Na Fazenda  Batistelli, em meados de fevereiro, com 60% da safra colhida, a produção estava estava em 55 sacas por hectare. “Não perdi por causa da seca porque plantei mais tarde, quando as chuvas já haviam se firmado”, diz Adenir Batistelli. “O que importa é a segurança.”

O agrônomo Gean Perassoli, funcionário da Fiagril há quatro anos, é um dos 50 consultores da empresa e atende os Batistelli. Para ele, as mudanças mais significativas no campo têm ocorrido em função de um melhor planejamento do negócio. “O produtor está mais ligado nas tecnologias e em como fazer renda sem aumentar a área”, diz Perassoli. “São muitos os caminhos da diversificação.” Ter mais de uma fonte de renda faz com que uma ponta segure a outra.

Nessa toada, os irmãos Batistelli também estão apostando em gado. Para isso, eles já construíram um confinamento e pretendem engordar pelo menos mil bois, a partir de 2017. “O milho para alimentar o gado, nós já temos”, diz Batistelli. O Mato Grosso, com cerca de 29 milhões de bovinos, confina atualmente cerca de 800 mil animais por ano – quase nada na região do meio norte –, mas poderia triplicar esse volume.  Já o produtor Hoffmann diversificou sua fazenda com 40 aviários, de onde saem 1,1 milhão de frangos a cada ciclo de 60 dias. As aves são entregues à unidade BRF, no município, considerada o seu mais moderno frigorífico. “Em 2008, quando comecei na avicultura, a ideia era diversificar a atividade da fazenda”, diz Hoffmann. “Hoje, ela é um complemento indispensável, porque os dejetos dos aviários viram adubo e aumentam a produção na lavoura”.

FUTURO O aumento da produção nas lavouras levou a Fiagril a novos projetos além do campo. Os primeiros passos da direção da agroindústria foram dados em 2008. Hoje, ela detém uma usina de biodiesel de soja que produz 160 milhões de litros por ano. No próximo ano, entra em operação outra usina, desta vez para produzir etanol de milho. O projeto, de US$ 105 milhões, é uma parceria com o Summit Group, um dos maiores produtores de etanol dos Estados Unidos. O início das obras será no dia 29 deste mês. Na primeira etapa, serão processadas 500 mil toneladas do cereal, por ano. De acordo com Marino Franz, na segunda etapa, que ainda depende de financiamento, o projeto é para um milhão de toneladas. “A meta é fazer da agroindústria um agregador de valor”, diz Franz. “O milho tem muito valor embarcado”.


Mais produção: a região do médio Norte de Mato Grosso tem potencial para produzir até 60 milhões de toneladas de soja e milho, em cerca de cinco safras

Mas a menina dos olhos de Franz atende pelo nome de Companhia Norte de Navegação e Portos (Cianport), em sociedade com Cláudio Zancanaro, da Agrosoja, produtor de grãos, óleo e farelo de soja e algodão, em Sorriso. O projeto, de US$ 160 milhões, do qual a Fiagril detém 40%, é para colocar no porto de Santana, no Amapá, os grãos originados em Lucas do Rio Verde. Atualmente, a maior parte da produção entregue à Fiagril é repassada para a Bunge, mas também há negócios com Cargill, Amaggi e Glencore. A ideia é participar das exportações, colocando o produto dentro do navio. “Não faz parte dos nossos planos negociarmos diretamente o produto na Europa ou na China, nesse momento”, afirma Binsfeld. “Vamos esperar pelo futuro”, afirma Franz. Se ele não fizer sua caminhada matinal em Lucas do Rio Verde, pode ter certeza: está em viagem, buscando novos negócios.

Fonte: dinheirorural.com.br

Jaqueline Alves

Graduada em Ciências Sociais e Engenheira Ambiental. Especialista em Direito Ambiental; Direito Municipal; Gestão Pública; Engenharia e Segurança do Trabalho; MBA em Petróleo e Gás e Auditoria Ambiental

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