Fordlândia, a utopia que Henry Ford tentou criar na Amazônia brasileira

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No começo do século XX, as linhas de produção de Henry Ford construiam carros a uma velocidade jamais vista. Todos aqueles carros precisavam de pneus, e na época a borracha ainda era derivada das seringueiras do Sudeste Asiático. Para manter a eficiência de sua produção sem depender dos asiáticos, Ford decidiu ter sua própria produção de látex, e para isso construiu uma cidade tipicamente americana em plena Amazônia, batizada de Fordlândia.

A história de Fordlândia começou em 1927, quando Henry Ford adquiriu um terreno de quase 15.000 km² às margens do Rio Tapajós, no Pará. Anos antes, o departamento de comércio dos EUA haviam feito um estudo de viabilidade de cultivo de seringueiras no Brasil com resultados positivos. Sabendo disso o produtor rural Jorge Dumont Villares, conseguiu com o governador Dionísio Bentes uma concessão de uma grande porção de terra para cultivar seringueiras. Tudo de graça. Quando soube que Henry Ford procurava uma região para sua cidade no Brasil, Villares ofereceu suas terras a ele por um valor equivalente a quase R$ 3 milhões atualmente. A comunidade foi criada para resolver um problema causado pelo incrível sucesso do império de Ford. Até o início dos anos 1900, os EUA consumiam mais de 70% da borracha do mundo, e a maior parte ia para Detroit, centro automobilístico do país. Nessa época, a borracha ainda vinha de plantas, então boa parte dela precisava ser enviada do Sudeste Asiático.

Ford, sempre pensando em eficiência, não queria continuar dependendo da Ásia, onde as plantações britânicas de seringueiras – árvores de onde se extrai o látex – produziam a maior parte da oferta global de borracha. Então ele resolveu criar a sua própria fazenda para tanto. Em um ataque de criatividade, ele a chamou de Fordlândia. Vale notar que, quando a Fordlândia nasceu, o ciclo da borracha já havia acabado no Brasil. Ele viveu seu auge entre 1879 e 1912, e acabou justamente porque os britânicos passaram a produzir látex com maior eficiência e produtividade no Sudeste Asiático, usando sementes vindas da própria Amazônia.

No ano seguinte, Ford enviou suprimentos e funcionários à Amazônia. A missão era criar um subúrbio americano no coração da floresta. Dentro de um período relativamente curto de tempo, já havia casas, água encanada, eletricidade, um hospital de primeira linha, onde foi feito o primeiro transplante de pele no Brasil, além de alguns extras como piscinas e até um cinema, que condiziam com uma forte crença de Ford: o lazer é uma parte essencial da economia.Os funcionários também precisavam adotar um estilo de vida característico de subúrbios dos EUA, junto a uma forte dose dos princípios morais de Ford: ou seja, bebidas alcoólicas e jogos de azar eram proibidas dentro da cidade.  Hambúrgueres e outros pratos da culinária americana eram destaque no refeitório.

Para deixar a situação ainda pior, Ford tentou impor a cultura americana de trabalho aos brasileiros, fornecendo uma alimentação tipicamente norte-americana, casas americanas, e os obrigava  a usar crachás e a trabalhar sob um modelo ao qual não estavam habituados. Isso causou a insatisfação dos funcionários, que resultou em baixa produtividade e conflitos. O mais marcante deles aconteceu em 1930, quando os funcionários se revoltaram contra a dieta americana, que incluía espinafre e até hambúrgueres.

Esse tipo de imposição cultural talvez até fosse aceito, caso a produção de borracha tivesse decolado. Mas descobriu-se que as seringueiras eram cultivadas no Sudeste da Ásia por um bom motivo: lá não havia predadores como o fungo do mal-das-folhas, que mata as seringueiras. E na Fordlândia, elas eram plantadas muito próximas entre si, o que as tornava um alvo fácil para pragas agrícolas. Pior: a terra era infértil e pedregosa. A produção no país era lenta, e os gestores de Michigan tinham zero conhecimento prático de botânica.

O legado de Henry Ford, gira em torno de algumas ideias conhecidas, como a linha de montagem e a jornada de trabalho de US$ 5. Mas poucos comentam o maior fracasso de Ford: a Fordlândia, uma cidade na Amazônia que foi abandonada quase tão rápido quanto foi construída. Com suas ideias, Ford acabou definindo o capitalismo do século XX. Mas nem tudo é bem-sucedido em sua história, indo de seu antissemitismo virulento às suas tentativas de projetar comunidades inteiras – incluindo a que ele criou na floresta tropical brasileira – em torno de suas ideias sobre práticas de trabalho.

O Governo Brasileiro indenizou a Ford em aproximadamente US$ 250.000, e ainda assumiu as dívidas trabalhistas com os trabalhadores. Em troca, recebeu seis escolas (quatro em Belterra e duas em Fordlândia); dois hospitais; estações de captação, tratamento e distribuição de água nas duas cidades; usinas de força; mais de 70 quilômetros de estradas; dois portos fluviais; estação de rádio e telefonia; duas mil casas para trabalhadores; trinta galpões; centros de análise de doenças e autópsias; duas unidades de beneficiamento de látex; vilas de casas para a administração; um departamento de pesquisa e análise de solo; e a plantação de 1.900.000 seringueiras em Fordlândia e 3.200.000 em Belterra.

Assistam esse documentário fantástico de Marinho Andrade e Daniel Augusto sobre a Fordlândia:

Jaqueline Alves

Graduada em Ciências Sociais e Engenheira Ambiental. Especialista em Direito Ambiental; Direito Municipal; Gestão Pública; Engenharia e Segurança do Trabalho; MBA em Petróleo e Gás e Auditoria Ambiental

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