Lítio: a riqueza no deserto de sal da Bolívia

Salar de Uyuni, Bolívia, América do Sul. A 3.760 metros de altitude, o vento sopra forte, e o sol parece tão próximo que dá a impressão de que podemos tocá-lo. Os operários têm o rosto tapado com capuzes de lã e óculos escuros para se proteger dos raios solares. Parecem fazer pouco caso do ar rarefeito, capaz de imobilizar as pernas e, a qualquer esforço, lançar nossos batimentos cardíacos a um ritmo galopante. São 70, e trabalham no projeto mais importante de seu país: a construção da primeira instalação industrial de exploração de lítio. O salar de Uyuni, um deserto branco de sal de 12 mil quilômetros quadrados localizado no sul da Bolívia, é onde está a maior jazida do mundo desse precioso material.

Os operários trabalham em turnos de 21 dias e dormem em precárias casinhas de madeira que pouco ajudam a barrar o frio de -25 °C durante as noites de inverno. Por isso, o primeiro edifício a sair da planta e o único que está quase terminado é justamente o quarteirão habitacional, onde os peões se alojam, situado ao lado dos futuros laboratórios. De acordo com as estimativas mais prudentes, debaixo do chão imaculado do salar de Uyuni, repousam pelo menos 100 milhões de toneladas de lítio. 

Desde que o presidente dos EUA, Barack Obama, lançou seu plano de eficiência energética — US$ 16 bilhões de investimentos, dos quais US$ 2 bilhões para criar baterias mais eficientes e duradouras, surgiu uma febre do lítio, que promete repetir no enorme deserto branco boliviano, o maior do mundo, algo equivalente à Corrida do Ouro do final do século 19, na Califórnia.

É fácil entender o porquê: atualmente, eficiência energética significa lítio, um metal volátil encontrado em abundância na salmoura de Uyuni, um mar de água e cloreto de sódio. Segundo estudos recentes, Chile, Bolívia e Argentina possuem, juntos, 75% de todas as reservas mundiais de lítio. O Chile é o principal produtor mundial. A Argentina, com um único local de extração, na província de Catamarca, noroeste do país, e explorada pela corporação norte-americana FMC Lithium, está em terceiro lugar, depois da China. A Bolívia ainda não entrou de fato no jogo, mas quando o fizer não haverá competição possível, dado que o salar de Uyuni abriga 50% de todo o lítio presente no planeta.

Operário trabalha em salar na Bolívia (Foto: Enrico Fantoni)

Os maiores clientes, as grandes empresas líderes em produção de baterias recarregáveis, vêm do Japão, EUA, China e Alemanha. E o futuro não se trata apenas de automóveis elétricos: segundo dados divulgados em 2005, cerca de 50 milhões de notebooks, 80 milhões de câmeras fotográficas digitais e 800 milhões de telefones celulares dependem do lítio para o seu funcionamento. De lá para cá, esse número cresce de maneira exponencial, pois as baterias não conseguiram acompanhar o ritmo dos avanços tecnológicos.

Veja só: de acordo com dados divulgados pela revista Wired, elas aumentaram a sua capacidade de carga em apenas 8 vezes nos seus 150 anos de existência. Por esse motivo, é muito provável que o recente auge do lítio seja um fenômeno destinado a durar no tempo, pois as baterias que contêm o material entre os seus componentes têm o triplo de energia e o dobro da potência das tradicionais, feitas de níquel metal. Além de serem muito mais leves, o que é crucial para a fabricação de automóveis elétricos com maior capacidade de armazenamento de energia e autonomia para percorrer distâncias maiores.

A Bolívia tem uma renda anual per capita de US$ 3,3 mil. De seus 62.479 km de estradas, quase 59 mil (93%) não têm pavimento — um número que faz o viajante sofrer na carne para chegar até o deserto salgado. O ônibus leva 12 horas para percorrer os 230 km que separam Uyuni da cidade de Villazon, na fronteira com a Argentina.

O distrito de Potosi, onde está localizado o salar, é o mais pobre de todo o país: ou seja, os mais pobres entre os mais pobres estão sentados sobre uma mina de ouro. E, quiçá o mais importante, eles têm total controle sobre tudo, visto que a nova Constituição da Bolívia, aprovada depois da posse do presidente Evo, confere às comunidades locais o direito de decidir sobre os recursos naturais presentes em seus territórios. Por isso, após terem pressionado por anos o país a fim de obter contratos de exploração da região, as multinacionais abandonaram o local, abrindo caminho a competidores, digamos, um tanto exóticos, como russos e iranianos.

O salar de Uyuni está localizado na região mais pobre da Bolívia (Foto: Enrico Fantoni)

Eles terão que lidar com gente como Paulino Colque, um dos líderes da Federação Regional Única de Trabalhadores Campestres (Frutcas), sindicato que representa cerca de 60 mil trabalhadores rurais e extratores de sal – muitos deles ainda realizam viagens em caravanas de lhamas que duram meses para levar o sal até o outro lado das montanhas. A federação sempre se manteve muito atenta no que diz respeito aos recursos naturais da Bolívia — em 1992, um acordo firmado entre o ex-presidente Jaime Paz Zamora com a Lithium Corporation, dos EUA, teve de ser anulada depois dos protestos organizados em Uyuni.

Olhos penetrantes e capuz de lã na cabeça, Paulino recebeu a reportagem de GALILEU na sede da federação, debaixo de um retrato de Evo Morales. “A exploração de lítio é uma ocasião histórica para a região, ela pode ser o motor do nosso desenvolvimento. Mas não nos interessa dar concessões a empresas estrangeiras que nos deixam apenas as migalhas da ganância e todos os problemas ambientais”, diz. “Temos que ser nós mesmos a retirar e processar o lítio. E – por que não? – também construir as baterias.”

Responsável pelo projeto-piloto, Marcelo Castro vê o lítio como “a luz que iluminará a região, permitindo acabar com a pobreza endêmica”. Poesia à parte, Marcelo pensa no lado prático. Sabe que, se quiserem realizar as coisas com alguma seriedade, ou seja, se desejam passar de um projeto-piloto à fábrica de extração propriamente dita, necessitarão de um investimento de aproximadamente US$ 200 milhões. Aí, é muito provável que a Bolívia tenha de buscar parceiros estratégicos para fornecer a tecnologia. “Sim, o faremos, mas sem perder o controle”, afirma. A Bolívia, esse país pobre que foi beijado por uma inesperada sorte, está decidida a não perder o trem do lítio. Com ou sem sócios.

Fonte: Galileu

Jaqueline Alves

Graduada em Ciências Sociais e Engenheira Ambiental. Especialista em Direito Ambiental; Direito Municipal; Gestão Pública; Engenharia e Segurança do Trabalho; MBA em Petróleo e Gás e Auditoria Ambiental

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