Os maiores compradores de terras do Brasil

TIME DE ESPECIALISTAS: Lopez, Guillaumon e Aguiar Neto (da esq. para a dir), além de Ivo Cunha (sentado), passaram por empresas agrícolas antes de se juntar à BrasilAgro

O telefone não pára de tocar no quinto andar do edifício Faria Lima Business Center, em São Paulo. De todas as regiões do País, os fazendeiros ligam, exaltam o valor de suas terras e oferecem as propriedades aos executivos que tocam a BrasilAgro. Criada há pouco mais de três anos, essa empresa surpreendeu o mercado quando, um ano e meio atrás, foi à Bolsa de Valores de São Paulo, lançou ações e conseguiu a façanha de captar R$ 552 milhões para um negócio que ainda nem existia. Havia apenas um plano de negócio. A idéia era usar o dinheiro na compra de fazendas, que seriam valorizadas e, pouco tempo depois, revendidas. Hoje, decorridos 18 meses daquele IPO na Bovespa, a BrasilAgro é mais do que uma realidade. A empresa tornou-se a maior compradora de terras do País, já possui 200 mil hectares em estoque e tem cadastradas em seu banco de dados, para eventuais negociações futuras, mais de mil propriedades rurais, que, juntas, somam 17 milhões de hectares. “Temos o mapa agropecuário do Brasil em nossas mãos”, disse à DINHEIRO RURAL o executivo Ivo Alves da Cunha, CEO da BrasilAgro. Com uma montanha de dinheiro em caixa e novas captações engatilhadas, a empresa poderá se transformar, em poucos anos, na maior latifundiária do País. “Em cinco anos, é possível chegar a um milhão de hectares, ou até mais”, reforça Pedro de Andrade Faria, sócio da gestora de fundos Tarpon, membro do conselho e um dos fundadores do negócio.

Na verdade, a BrasilAgro foi inspirada num modelo inovador, que teve a mão do megainvestidor húngaro George Soros e foi testado pela primeira vez na Argentina. Lá, tudo começou quando o grupo Irsa, dos irmãos Alejandro e Eduardo Elsztajn, criou uma empresa chamada Cresud, que passou a olhar para o agronegócio de um modo que ia além da atividade agrícola. O foco maior passou a ser o potencial de valorização das terras. Foi assim que eles começaram a comprar áreas na Argentina, que recebiam benfeitorias e, em seguida, depois de valorizadas, eram revendidas para outros produtores. “O foco do nosso negócio é imobiliário”, diz Cunha, que atuou durante muitos anos no setor, como executivo da construtora Gafisa. Isso, no entanto, não significa que a atividade agrícola seja desprezada. “É como aquele apartamento decorado, que valoriza o imóvel.”

“Em pouco tempo, podemos chegar a um milhão de hectares”

PEDRO DE ANDRADE FARIA, fundador da BrasilAgro

Essa faceta imobiliária ajuda a entender por que um dos principais sócios da BrasilAgro é o empresário Elie Horn, dono da Cyrela, que é hoje a maior construtora do País. E os negócios urbanos não são tão diferentes assim dos rurais. “No fundo, nós fazemos os Alphavilles do agronegócio”, diz Carlos Aguiar Neto, diretor financeiro da BrasilAgro. Um exemplo é o que está acontecendo no Piauí, onde a empresa comprou a fazenda Cremaq, de 32,3 mil hectares, por R$ 42 milhões. Aguiar explica que, para cada real gasto na aquisição, outro real é investido em benfeitorias. Depois, a fazenda será dividida em vários talhões, com áreas próximas a dois mil hectares. Em seguida, elas serão revendidas a agricultores que, sozinhos, não teriam tido capacidade de desenvolver a região, que será voltada à soja. “O dinheiro do mercado de capitais nos dá a capacidade de antecipar movimentos e abrir novas fronteiras agrícolas”, diz ele.

Até agora, a BrasilAgro já comprou nove propriedades e as fazendas serão utilizadas para quatro tipos de atividades agrícolas: plantio de grãos (soja, milho e algodão), cana-de-açúcar, pecuária e florestas. No caso da cana, há uma associação com a Brenco, que é liderada por Henri Philippe Reichstul, ex-presidente da Petrobras, e também tem o fundo Tarpon como acionista. No algodão, há uma parceria com o grupo Maeda, do empresário Jorge Maeda, para uso de sementes e das melhores técnicas agrícolas. Na pecuária, a idéia é que esse seja apenas o primeiro uso das terras, antes que elas migrem para atividades mais rentáveis. “No fundo, o preço da terra é uma variável que depende do retorno da atividade agrícola”, diz André Guillaumon, diretor de operações da BrasilAgro. “Quanto maior a rentabilidade por hectare para o agricultor, maior será o preço do imóvel”, reforça o argentino Gustavo Javier Lopez, que foi da Cresud e se juntou ao time brasileiro.

Hoje, a BrasilAgro tem fazendas nos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, Piauí e Goiás. No conselho, há nomes de peso, como Mário Barbosa Neto, CEO da Bunge, e Murilo Passos, ex-presidente da Suzano. Todos ajudam a traçar as estratégias e a escolher as áreas, o que, muitas vezes, tem critérios parecidos com os da compra de um imóvel urbano. “Assim como o comprador pensa em metrô, nós olhamos a chegada de uma futura ferrovia, de um alcoolduto e assim por diante”, diz Cunha, o CEO. A diversificação de atividades agrícolas também tem sua motivação estratégica. “Uma carteira de investimentos no agronegócio ser administrada como um portfólio de ações”, diz o diretor financeiro Aguiar Neto. Ele lembra que as primeiras fazendas de soja do grupo foram compradas quando os produtores do grão estavam “estressados”. E poderão ser vendidas na retomada de preços. O mesmo vale para a cana. Investidores que pagaram caro no ano passado talvez estejam dispostos a vender, agora que o preço do açúcar caiu.

Hoje, mesmo depois de todas as aquisições, a BrasilAgro ainda dispõe de muito dinheiro em caixa, porque a maior parte das compras vem sendo paga de forma parcelada. Apesar disso, a empresa estuda realizar novas captações no mercado financeiro e os próprios fundadores, Tarpon e Cresud, têm intenção de participar. “Esse é um negócio no qual pretendemos estar envolvidos por muitos e muitos anos”, diz Pedro Faria. Se eles estiverem mesmo dispostos a atingir a marca de um milhão de hectares, muitas fazendas terão de ser adquiridas. Quem sabe, até a sua!

AS ÁREAS DE ATUAÇÃO DA BRASILAGRO

ALGODÃO

R$ 31,8 MILHÕES

foi o valor pago na fazenda Jatobá (BA), que será dedicada a essa lavoura

CANA-DE-AÇÚCAR

R$ 123 MILHÕES

é o valor definido para a aquisição de várias propriedades no setor

SOJA

R$ 42,2 MILHÕES

é o preço da fazenda Cremaq (PI), que será dividida em vários talhões

PECUÁRIA

R$ 47,1 MILHÕES

é o valor da área de 38 mil hectares, na Bahia, que receberá o projeto de gado de corte

Fonte: dinheirorural

Jaqueline Alves

Graduada em Ciências Sociais e Engenheira Ambiental. Especialista em Direito Ambiental; Direito Municipal; Gestão Pública; Engenharia e Segurança do Trabalho; MBA em Petróleo e Gás e Auditoria Ambiental

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