Um laboratório a céu aberto das transformações na Amazônia

 

Pesquisador Claudinei dos Santos em torre de observação sobre área que teve queima na fazenda Tanguro. Crédito: Tiago Queiroz / Estadão

Pesquisador Claudinei dos Santos em torre de observação sobre área que teve queima na fazenda Tanguro. Crédito: Tiago Queiroz / Estadão

QUERÊNCIA – Cadê a anta que estava aqui? Tá no mato espalhando semente. Cadê o mato? O fogo queimou. Cadê o fogo? Tá na mão do cientista. Cadê o cientista? Tá coletando amostra de água. Cadê a água? Tá debaixo do campo de soja. Cadê a soja? Tá no lugar onde antes era a floresta. Cadê a floresta? A anta está tentando replantar…

Em uma livre adaptação da brincadeira de criança, assim poderia ser resumido o contexto do trabalho que um grupo internacional de pesquisadores vem realizando na fazenda Tanguro, no nordeste do Mato Grosso. O objetivo é entender como as mudanças no uso do solo impactam o clima local – além do global – e afetam até mesmo a agricultura plantada onde antes havia floresta.

Em meio ao arco do desmatamento – faixa por onde ocorreu a expansão da fronteira agrícola a partir dos anos 1970 –, e nas proximidades do Parque Indígena do Xingu, a fazenda Tanguro, do grupo Amaggi (da família do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, premiado em 2005 com a “motosserra de ouro” – leia mais abaixo), funciona como uma espécie de microcosmo do que ocorreu em toda aquela região.

Só nos anos 2000, a área teve 85 mil quilômetros quadrados queimados e registrou um aumento de 17 dias na estação seca.

A fazenda passou por várias etapas de desmatamento até 1992, primeiramente para a colocação de pasto, que depois foi substituído por soja, mas manteve 50% da área como Reserva Legal. Para o bioma Amazônia, o Código Florestal estabelece que 80% da vegetação tem de ser preservada, mas a Tanguro está numa faixa de transição com o Cerrado e a lei da época permitia que a Reserva Legal fosse menor.

Ali, o projeto científico foi iniciado em 2004 após uma parceria da empresa com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). O trabalho, que ficou famoso por colocar fogo na floresta a fim de entender quanto ela é resiliente ao fogo, também investiga o que acontece na temperatura, na umidade do ar, no fluxo de água e de gases de efeito estufa, no regime de chuvas, na capacidade da floresta de lidar com o fogo e na biodiversidade com as mudanças na paisagem.

Reação em cadeia. Os estudos mostram que todos esses fatores estão conectados (veja infográfico abaixo). “A mudança do uso da terra altera os ciclos de carbono e de água, impacta a saúde das florestas, que se tornam mais vulneráveis ao fogo e menos apetitosas para os animais. Uma floresta menos saudável muda completamente a dinâmica dos córregos da região”, afirma o ecólogo Paulo Brando, coordenador das pesquisas na Tanguro e pesquisador do Centro de Pesquisa Woods Hole (WHRC, nos EUA), do Ipam e da Universidade Estadual do Mato Grosso.

E esse efeito é cumulativo na paisagem. Quando atinge uma proporção devastadora é muito difícil reverter esse processo. Precisa de uma estratégia que vai muito além daquele ponto”

Clique na imagem para ver o infográfico ampliado

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Um dos resultados mais significativos constatou que a floresta funciona como o ar-condicionado para os campos de soja. “Quando a floresta é convertida para a soja, ocorre um aumento na temperatura da superfície de até 5°C. Isso está ligado a uma redução na evapotranspiração – que é a quantidade de água que retorna para a atmosfera na forma de vapor, que vira nuvens e, depois, chuva – de 30% nos campos de soja”, explica o ecólogo Divino Vicente Silvério, pesquisador do Ipam, que fez os cálculos em seu doutorado na Universidade de Brasília.

O trabalho, publicado em outubro do ano passado na revista Environmental Research Letters, avaliou as mudanças na bacia do Xingu e constatou que o parque indígena presta o serviço de resfriar os campos de soja no seu entorno.

Mostrou também as diferenças na absorção de água da chuva pelo solo entre a floresta e o campo de soja. Enquanto nas plantações, 51% da água da chuva retorna para a atmosfera, nas florestas, essa parcela é de 77%. Isso significa, portanto, que mais água é retida no solo debaixo da plantação, o que impacta o fluxo dos córregos e as matas ciliares no seu entorno.

“Em uma bacia florestada, árvores com raízes profundas pegam a água da chuva, usam a energia do Sol para evapotranspirar e é isso que resfria o ambiente. Se muda a vegetação, o sistema vai encontrar outro equilíbrio”, explica a ecóloga de paisagens Marcia Macedo, do WHRC, que investiga as consequências para os ecossistemas aquáticos.

Mais água sob o solo, afirma Marcia, significa também mais água escorrendo para os córregos, que podem transbordar. Por outro lado, essa situação muda em períodos de seca. Sem a floresta para ajudar a fazer chuva, os córregos podem secar. “Em uma escala regional, isso tem impactos para o consumo humano, para hidrelétricas”, alerta. “O solo fica com mais água, mas o custo disso é o aumento da temperatura no local”, resume Brando.

Na Tanguro, Marcia avalia a situação de nove bacias em dois contextos – com córregos cercados por matas ciliares (áreas de preservação permanente – APPs) preservadas e os cercados por APPs com algum grau de degradação.

São aquelas que têm o entorno com algum uso há pelo menos 25 anos. Foram, por exemplo, pisoteadas por gado quando a fazenda tinha pecuária e acabaram ficando com uma vegetação mais aberta, ou sofrem com o chamado efeito de borda, ressecamento e empobrecimento provocado pela proximidade com um campo de cultivo.

“Nossa expectativa era que o fluxo de água seria maior na APP degradada e de fato encontramos um volume quatro vezes maior”, afirma a pesquisadora. Também se observou que nessas bacias a temperatura é um pouco mais alta tanto na mata quanto na água, o que pode prejudicar a vida aquática. Um dos estudos observou que o tamanho dos peixes nesses córregos é menor.

O ecólogo Paulo Ilha, do Instituto de Biociências da USP, fez coletas em seis riachos – três em áreas de florestas e três em áreas agrícolas – e observou que quatro das seis espécies mais comuns nos riachos sofreram uma redução de tamanho de 44% a 57% nas áreas agrícolas.

Segundo ele, a retirada da cobertura florestal facilita a erosão e o transporte de sedimentos para os rios, modificando as características físico-químicas da água e a oferta de comida e abrigo para os animais aquáticos.

Segundo Marcia, porém, mesmo estando degradadas, as APPs das áreas agrícolas realizam um trabalho de sombreamento dos córregos e de filtragem do que vem do campo que é importante, mas sugere que os resultados do estudo podem orientar ações para a recuperação dessas áreas.

“Estamos checando o número de espécies de árvores nas APPs em áreas impactadas e nas intactas. Nas primeiras, há menos espécies. Elas estão sumindo por causa do efeito de borda, são menos resistentes. Na hora de recuperar, esse é um dado importante, para que as matas ciliares possam funcionar como corredores ecológicos para a fauna.”

Do fogo à anta. Parte dessa solução, acreditam os pesquisadores, passa pelo começo da parlenda que abriu esta reportagem: as antas. Como grandes herbívoros, elas se alimentam de frutas e passam boa parte dos seus dias perambulando pelos trechos de mata. Acabam fazendo cocô por todo o lado, espalhando, assim, sementes que podem ajudar a restaurar a mata tanto das APPs quanto da Reserva Legal.

Anta flagrada em armadilha fotográfica localizada em área degradada pelo fogo. Crédito: Divulgação

Anta flagrada em armadilha fotográfica localizada em área degradada pelo fogo. Crédito: Divulgação

Uma das linhas de pesquisa que está sendo conduzida na Tanguro neste momento tenta descobrir quão eficiente é este papel em algumas regiões danificadas de propósito pelos pesquisadores.

No experimento mais antigo e duradouro, desde 2004 eles colocam fogo na floresta para checar, por um lado, quão resiliente ela é aos incêndios e, por outro, quão vulnerável ela fica em períodos de seca intensa e quando foi muito reduzida por desmatamento e enfraquecida pelo efeito de borda. É o único experimento do tipo feito em floresta tropical.

Os pesquisadores viram que as secas históricas de 2005 e 2010 na Amazônia tiveram um efeito dramático. “Ocorreu um empobrecimento florestal profundo. Mais de 50% das árvores morreram na fase de colapso. Na borda foi quase 100%. Mesmo as árvores que sobreviveram ao fogo caíram quando ocorreu uma tempestade de vento forte. Mais de 2 mil caíram com meia hora de vento”, conta Paulo Brando.

A ideia de fazer o trabalho surgiu do fato de que ainda é uma prática comum entre produtores da região queimar a floresta para limpar áreas para a colocação de pasto. Só que às vezes o fogo se espalha além do esperado.

Pesquisador coloca fogo em parcela da floresta para estudar os impactos dos incêndios na Amazônia. Crédito: Giovana Girardi / Estadão

Pesquisador coloca fogo em parcela da floresta para estudar os impactos dos incêndios na Amazônia. Crédito: Giovana Girardi / Estadão

“Só nos anos 2000 essa região teve 85 mil km2 queimados, mas não sabemos quase nada sobre o que acontece nessas situações. Por isso medimos todas as condições da floresta natural por anos e depois a queimamos, para entender como as condições climáticas afetam o comportamento do fogo e a dinâmica da vegetação, qual vai ser o futuro das florestas da Amazônia”, diz.

“A lição que tiramos até agora é que a floresta é relativamente resistente a fogos de muito baixa intensidade, mas quando queimamos em ano de seca descobrimos que esses incêndios podem ter efeitos catastróficos, transformando uma floresta num sistema altamente degradado, com gramíneas invasoras, em menos de três anos”, explica.

Com o fogo, resume Brando, se perde a poupança e o rendimento. Perde-se o carbono estocado nas árvores e no solo e a capacidade das árvores de absorverem carbono da atmosfera. Quando a vegetação começa a regenerar, ao menos essa parte volta, assim como o fluxo de água, mas a poupança já foi.

A expectativa é que as antas possam ajudar nesse tarefa, fechando o ciclo. O biólogo Rogério Liberio Pereira, em sua pesquisa de mestrado na Universidade do Estado do Mato Grosso, está tentando decifrar esse papel.

Por meio de armadilhas fotográficas e visualização em campo, ele investiga se as antas circulam pelas áreas degradadas pelo fogo. Mas o mais importante é saber o que elas andam comendo. Para isso, ele coleta as fezes dos indivíduos, que tem um comportamento curioso de sempre defecarem num mesmo lugar, nas chamadas latrinas, e procura ali sementes, para saber se elas ajudam na regeneração.

O trabalho ainda está em andamento, mas a expectativa é que a hipótese se confirme. “Elas têm por hábito andar por trilhas abertas pelo homem e já identificamos uma densidade maior de antas nas áreas que foram queimadas e por onde sempre tem pesquisador andando, do que em outros locais. Mas ainda estamos analisando o que elas comem”, conta. Até agora, já foram identificadas mais de 57 mil sementes, de 24 espécies.


Para entender
O Centro de Experimentos do Ipam funciona na fazenda Tanguro, do grupo Amaggi, da família de Blairo Maggi. O ex-governador do MT e atual ministro da Agricultura foi nos anos 2000 fortemente associado ao desmatamento da Amazônia.

Foi por muitos anos conhecido como o “rei da soja” e, por causa da expansão do grão sobre áreas de floresta, chegou a ser retratado no jornal The New York Times, em 2003, como inimigo incansável da floresta. Em 2005, recebeu do Greenpeace o prêmio “motosserra de ouro”.

O trabalho do Ipam começou em 2004. De acordo com a Amaggi, a parceria surgiu da necessidade de promover a recuperação de áreas degradadas dentro da fazenda.

“À época, a Amaggi precisava aplicar medidas de recuperação num tipo de área (transição de cerrado para floresta amazônica) que era justamente objeto de pesquisas por parte do Ipam. Logo, a Tanguro, por sua localização, serviu muito bem para o desenvolvimento dos estudos deles – e o fomento a esses estudos passou a ser de interesse da Amaggi”, disse a empresa por meio de nota.

* A repórter viajou a convite do Ipam como participante de um curso para jornalistas sobre os experimentos

Fonte: sustentabilidade.estadão

Jaqueline Alves

Graduada em Ciências Sociais e Engenheira Ambiental. Especialista em Direito Ambiental; Direito Municipal; Gestão Pública; Engenharia e Segurança do Trabalho; MBA em Petróleo e Gás e Auditoria Ambiental

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